
Os imóveis passam a integrar oficialmente o conjunto de bens protegidos pelo Estado
A Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro (SececRj), por meio do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), publicou na última semana, em diário oficial, a Resolução SECEC nº 484, que determina o tombamento definitivo de três importantes bens culturais do município de São Fidélis, no Norte Fluminense. A medida reconhece e protege oficialmente a Igreja Matriz de São Fidélis de Sigmaringa, o Solar do Barão de Vila Flor e a Ponte Metálica sobre o Rio Paraíba do Sul.
O ato, assinado pela secretária de Estado de Cultura e Economia Criativa, Danielle Barros, homologa o parecer do Conselho Estadual de Tombamento e consolida a atuação do Inepac na salvaguarda do patrimônio histórico fluminense.
“A preservação do patrimônio cultural é uma política pública fundamental para fortalecer a identidade dos territórios e valorizar a memória coletiva. Esses bens contam histórias que atravessam gerações e fazem parte da formação social, econômica e cultural do nosso estado”, destacou a secretária Danielle Barros.

Fundada em 1808 (aberta ao culto em 1809) por monges capuchinhos italianos, a igreja foi erguida com o apoio de fazendeiros locais e mão de obra escravizada, utilizando recursos provenientes de taxas sobre terras indígenas ocupadas. Projetada com dimensões monumentais para a simplicidade da época, a construção enfrentou períodos de abandono e ruína, passando por restauros significativos em 1845 e 1962. Esta última reforma, embora tenha preservado o interior, alterou características da fachada original.
O templo destaca-se pelo estilo barroco ‘italianizado’ e influências do classicismo, apresentando um partido arquitetônico em forma de cruz latina. O interior possui nave única, abóbadas de berço e piso em mármore. A decoração é rica em pinturas murais (com destaque para os quatro evangelistas sob a cúpula e temas sacros nos altares laterais). Na Capela do Santíssimo, encontram-se os túmulos dos fundadores e elementos em madeira com detalhes dourados.
A igreja é considerada um marco da arquitetura brasileira por refletir a transição estilística do Renascimento para o Barroco e por sua técnica construtiva singular, que utilizou materiais regionais (como o saibro) para erguer uma estrutura de proporções europeias no interior fluminense.

Construído em 1847 por João Manoel de Souza — rico fazendeiro que posteriormente recebeu o título de Barão de Vila Flor —, o solar foi palco de momentos decisivos para São Fidélis. O proprietário teve papel fundamental na elevação do povoado à categoria de Vila em 1850, após intercessão direta com D. Pedro II. Devido à sua importância, o casarão hospedou figuras ilustres da história brasileira, como o Imperador e a Imperatriz, a Princesa Isabel, o Conde d’Eu e, décadas depois, o presidente Getúlio Vargas.
O edifício é um exemplar típico da arquitetura colonial brasileira de meados do século XIX, apresentando pavimento único em alinhamento frontal, com telhado em duas águas e telhas do tipo capa-canal. Fachada composta por um corpo central ladeado por um alpendre decorado com rendilhado em madeira e forro do tipo “saia e camisa”. Seu interior preserva elementos originais como o piso em tábua corrida e forros de madeira.
Em 1957, os descendentes do Barão doaram o imóvel à Prefeitura Municipal. Atualmente, o solar cumpre uma função cultural e educativa, abrigando a Biblioteca e o Museu Municipal, além de dependências da Secretaria de Cultura e Turismo de São Fidélis.

Inaugurada em agosto de 1891, a ponte foi um marco da engenharia ferroviária no Brasil. Embora o projeto original seja atribuído à engenharia inglesa, a estrutura foi fabricada pela empresa americana Phoenix Iron Company. Sua principal característica técnica é o uso da “Coluna Phoenix”: uma estrutura de ferro forjado oca e circular, revolucionária na época, que compõe as treliças conectadas por pinos que sustentam a ponte.
Originalmente projetada para trilhos, a ponte passou por adaptações ao longo do tempo. Possui aproximadamente 460 a 500 metros de comprimento, divididos em oito vãos suportados por sete pilares maciços de alvenaria de pedra. Com o fim da era ferroviária, a linha férrea foi substituída por um tabuleiro de concreto, convertendo-a para o tráfego rodoviário. Atualmente, a ponte liga o 1º Distrito ao 2º Distrito (Ipuca) e é um dos principais cartões-postais da “Cidade Poema”.
Considerada um bem de grande valor histórico e turístico para o Estado do Rio de Janeiro, a ponte passou por uma revitalização em 2020, recebendo nova pintura e iluminação, preservando sua identidade como símbolo da industrialização do século XIX.
O Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), criado em 1975, é o herdeiro direto da Divisão do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Guanabara – DPHA, criada por decreto em 1963 (primeiro órgão de preservação do patrimônio cultural, em nível estadual). O Instituto dedica-se à preservação do patrimônio cultural do Estado do Rio de Janeiro, elaborando estudos, fiscalizando e vistoriando obras e bens tombados, emitindo pareceres técnicos, pesquisando, catalogando, inventariando e efetuando tombamentos.
O Inepac presta, ainda, assessoria técnica às prefeituras municipais em caso de elaboração de inventários de bens culturais móveis e imóveis ou no desenvolvimento de projetos e obras de restauração arquitetônica e artística nos municípios.
Assessora instituições públicas e comunitárias de todo o Estado, bem como o Conselho Estadual de Tombamento, órgão vinculado ao Gabinete da Secretária de Cultura. Também as Promotorias de Justiça Regionais de Defesa e Proteção ao Meio Ambiente e Patrimônio Cultural em inquéritos civis e ações públicas movidas pelo Ministério Público Estadual e Federal, além de atender, diariamente, estudantes, professores e pesquisadores.
Com o tombamento definitivo, os três bens passam a contar com proteção legal estadual, garantindo a preservação de suas características históricas, arquitetônicas e simbólicas, e reforçando o compromisso do Governo do Estado com a valorização do patrimônio cultural fluminense.
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