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Campos dos Goytacazes: A história por trás da história


Por Leonardo Alves – Diretor do Departamento de Pesquisa e Documentação do Inepac

O aniversário de Campos dos Goytacazes e as discussões acerca das supostas datas que marcariam a fundação da cidade exaltam a importância da memória para o cidadão campista. Seja no dia 6 de agosto de 1652, que data a construção da primeira capela em louvor ao Santíssimo Salvador; no 1º de janeiro de 1653, com a instalação da primeira Vila de São Salvador; em 29 de maio de 1677, data da instalação de uma segunda Vila pelo Visconde de D’Asseca; ou até mesmo em 28 de março de 1835, o que fica marcado, acima de tudo, é a memória social que está em disputa e que destaca, em cada data, uma singularidade que a coloca como marco regional.

E é essa memória social – os traços do passado que permanecem vivos na vida social dos grupos, que segundo Pierre Nora nos fazem agir e constituem, eles próprios, formas de ação. Como é exemplificada na exposição “Povoado, Vila e Cidade”, inaugurada em 24 de março de 2022 no foyer do Palácio Nilo Peçanha, sede da Câmara Municipal de Campos, que ilustra um pouco da história do município desde a fundação da Capitania de São Thomé em 8 de dezembro de 1532.

No fim de tudo, a data em si acaba por se tornar apenas uma questão formal dentro de um espaço que discute e amplifica a história e a construção da identidade do cidadão campista. A exposição, promovida em uma parceria entre a Câmara de Vereadores, a Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), o Instituto Histórico e Geográfico de Campos dos Goytacazes (IHGCG) e a Câmara dos Dirigentes Lojistas de Campos (CDL), por meio de um trabalho feito pela Escola Municipal de Gestão do Legislativo (Emugle) e o Museu Histórico de Campos dos Goytacazes (MHCG), reforça uma dúvida comum em vários municípios: Afinal, o que determina a existência de uma cidade?

É importante destacar que este artigo não visa esclarecer esse questionamento, mas sim demonstrar a importância da pesquisa histórica para analisar as mais diversas ações do homem no tempo e como elas constroem símbolos que se perpetuam no conhecimento geral e como esses símbolos se relacionam com a memória da sociedade.

Marc Bloch, em seu livro “Apologia da História ou o Ofício do Historiador”, busca esclarecer que a pesquisa histórica vai muito além da simples catalogação de documentos e verificação das datas. A história é feita pelo ser humano, pelas suas ações e como ele se relaciona com o tempo. O positivismo por anos enclausurou a história no campo dos marcos e reprodutores do documento. Mais importante que a simples leitura do documento são as perguntas que podemos realizar ao mesmo. Pois os textos ou os documentos arqueológicos, mesmo os aparentemente mais claros e mais complacentes, não falam senão quando sabemos interrogá-los (…) Em outros termos, toda investigação histórica supõe, desde seus primeiros passos, que a busca tenha uma direção (…) (BLOCH, Marc. p. 79).

Por anos, as comunidades foram excluídas dos debates referentes à sua história, sendo vistas como receptoras dos dados levantados pelos pesquisadores. E é exatamente por isso que a atual historiografia, especialmente a ligada à preservação do Patrimônio Cultural e à memória, busca reparar tal processo. Para a correta qualificação do bem cultural em estudo devem ser levados em conta aspectos políticos, socioeconômicos, técnicos e artísticos que, direta ou indiretamente, possam estar relacionados com a sua concepção, construção ou existência. Ouvir a sociedade, durante o processo de patrimonialização de um bem cultural, é fundamental não só para embasar as justificativas de tombamento ou registro como também garantir sua efetiva preservação.

A comunidade é a verdadeira responsável e guardiã de seus valores culturais. Não se pode pensar em proteção de bens culturais, se não no interesse da própria comunidade, a qual compete decidir sobre sua destinação no exercício pleno de sua autonomia e cidadania. (Patrimônio cultural: educação para o patrimônio cultural. p. 39).

Tal atividade de escuta pode ser observada na exposição “Povoado, Vila e Cidade”, anteriormente citada, sendo a mesma um exemplo de divulgação científica em conjunto com a participação popular na construção de um marco civil para os munícipes. A proposta de uma votação para uma possível escolha de data de aniversário da cidade, após a divulgação das pesquisas realizadas, traz para a comunidade o protagonismo como detentores da memória da Cidade de Campos dos Goytacazes.

Artigo por Leonardo Alves, Diretor do Departamento de Pesquisa e Documentação do Inepac / Foto: Gui Maia.

Bibliografia:

BLOCH, Marc. Apologia da história, ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
ESCOCARD, Graziela. Quando Campos dos Goytacazes nasceu? Um breve percurso por sua história. Disponível em: Quando Campos dos Goytacazes nasceu? Um breve percurso por sua história… – Terceira Via Terceira Via (jornalterceiravia.com.br). Acesso em 28 de março. 2022.
LEITE, Pereira Pedro. O Paradoxo da memória e o impasse do projeto antropológico. Disponível em: https://globalherit.hypotheses.org/1448. Acesso em 28 de março. 2022.
MACHADO, Rhuana. Mostra “Povoado, Vila e Cidade” está em cartaz na Câmara de Campos. Disponível em: Mostra “Povoado, Vila e Cidade” está em cartaz na… | Na Balança NF (nabalancanf.com.br). Acesso em 28 de março. 2022.
SOUZA, Sergio Linhares Miguel (org). CARVALHO, Evandro Luiz de (org). Patrimônio cultural: educação para o patrimônio cultural/Instituto Estadual do Patrimônio Cultural. Rio de Janeiro, 2014.